As cadeias produtivas ligadas ao agronegócio concentraram R$ 7,7 bilhões dos financiamentos aprovados pelo Plano Brasil Soberano, programa federal criado para apoiar empresas brasileiras afetadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos nacionais. O montante representa 39,5% dos R$ 19,6 bilhões aprovados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Os números constam no relatório de execução divulgado pelo banco em julho e mostram que os setores de alimentos, agricultura, pecuária, madeira e couro foram os principais beneficiados pela linha emergencial de crédito criada após o primeiro pacote de tarifas adotado pelo governo do presidente Donald Trump em 2025.
Enquanto o governo brasileiro se prepara para uma nova etapa do programa, denominada Brasil Soberano Competitividade, o levantamento revela que o agronegócio esteve entre os segmentos que mais recorreram aos recursos para preservar operações e manter contratos de exportação diante do cenário de instabilidade comercial.
Indústria de alimentos liderou acesso aos recursos
Entre os setores contemplados, a indústria de alimentos foi a que recebeu o maior volume de financiamentos, somando R$ 4,159 bilhões distribuídos em 260 operações.
Na sequência aparecem a fabricação de produtos de madeira, com R$ 1,854 bilhão, as atividades de agricultura, pecuária e serviços relacionados, que receberam R$ 917 milhões, e a indústria de couros e artefatos, com R$ 804 milhões.
O valor total destinado ao agronegócio pode ser ainda maior. Isso porque o relatório não detalha todas as empresas beneficiadas em segmentos como comércio atacadista, fabricação de máquinas agrícolas, fertilizantes, defensivos e produtos químicos, atividades que também possuem forte ligação com o setor rural.
Além disso, o documento não contabiliza empresas que utilizaram recursos próprios para absorver os impactos das tarifas e manter os compromissos assumidos com compradores internacionais.
Capital de giro foi prioridade
Criado por meio de medida provisória em agosto de 2025, o Plano Brasil Soberano previa inicialmente R$ 30 bilhões em crédito para empresas afetadas pelas restrições comerciais impostas pelos Estados Unidos.
Até dezembro daquele ano, o programa havia aprovado R$ 19,59 bilhões em 1.386 operações, comprometendo cerca de 89% dos recursos efetivamente transferidos ao BNDES pelo Fundo de Garantia à Exportação (FGE).
Do total aprovado, R$ 10,82 bilhões foram efetivamente desembolsados, enquanto outros R$ 8,77 bilhões permaneciam pendentes de liberação até o fechamento do relatório.
Os dados mostram que o foco principal do programa foi garantir liquidez às empresas. Cerca de 51% dos financiamentos foram destinados ao capital de giro emergencial, permitindo que companhias mantivessem despesas operacionais e honrassem contratos durante o período de incertezas.
Outros 47% dos recursos financiaram capital de giro voltado à diversificação de mercados, modalidade que exige das empresas o compromisso de ampliar as exportações para países além dos Estados Unidos.
Investimentos ficaram em segundo plano
Embora o plano também previsse linhas voltadas à modernização da produção e ampliação da competitividade, essa modalidade teve baixa procura.
Segundo o relatório, apenas R$ 348 milhões, menos de 2% do total aprovado, foram destinados a investimentos produtivos e aquisição de bens de capital. Já a linha voltada à adaptação industrial, inovação tecnológica e expansão da capacidade exportadora não registrou nenhuma operação aprovada.
O cenário indica que, diante dos impactos provocados pelo aumento das tarifas norte-americanas, a prioridade das empresas brasileiras foi preservar o fluxo de caixa e manter as atividades em funcionamento, deixando investimentos de longo prazo para um momento de maior estabilidade.
Enquanto isso, o governo federal prepara uma nova fase do programa de crédito para atender empresas que serão afetadas pela nova tarifa de 25% anunciada pelos Estados Unidos sobre parte das importações brasileiras.