A participação das mulheres nas decisões do agronegócio brasileiro cresceu nos últimos dez anos e já representa 40% dos 10,7 milhões de produtores rurais decisores do país. O dado faz parte do estudo Perfil da Mulher do Agronegócio Brasileiro: 10 anos de transformação e avanços, divulgado nesta sexta-feira (2), durante o Global Agribusiness Festival (GAFFFF).
Realizado pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), em parceria com a Serasa Experian e com levantamento da Fran6 Pesquisa, o estudo mostra mudanças na presença feminina dentro das propriedades rurais e na condução dos negócios. A pesquisa reuniu dados quantitativos e 25 entrevistas com produtoras, pecuaristas e agroindustriais de diferentes regiões do Brasil.
Um dos principais avanços identificados está na participação direta das mulheres na propriedade rural. 91% das entrevistadas afirmaram ser proprietárias, total ou parcialmente, do negócio, índice 10 pontos percentuais superior ao registrado na pesquisa realizada dez anos atrás.
Escolaridade e tecnologia ampliam autonomia
O crescimento da presença feminina no agronegócio também aparece associado à qualificação profissional. Entre as gestoras ouvidas pelo levantamento, 46% possuem pós-graduação, contra 24% em 2015. Além disso, 77% declararam ter concluído o ensino superior.
A tecnologia também ganhou espaço na rotina das propriedades. Segundo o estudo, 71% das gestoras utilizam ou operam, de maneira independente ou parcialmente independente, ferramentas como drones, telemetria e sistemas de gestão.
Os dados indicam que a atuação das mulheres no campo deixou de estar concentrada apenas em funções de apoio e passou a alcançar áreas diretamente relacionadas à administração, planejamento e tomada de decisões.
Produtoras apresentam menor inadimplência
A análise conduzida pela Serasa Experian também avaliou o comportamento financeiro das produtoras rurais. De acordo com os dados apresentados, as mulheres registraram taxas de inadimplência inferiores às dos homens em diferentes segmentos.
Entre as grandes proprietárias rurais, a taxa de inadimplência foi de 6,85%. Na Região Sul, o índice registrado entre as produtoras foi de 5,4%.
O levantamento também cruzou informações relacionadas à conformidade ambiental das propriedades. Segundo o estudo, os imóveis sob comando exclusivo feminino apresentam uma parcela reduzida das restrições legais e dos passivos ambientais analisados.
Nos registros de trabalho escravo e desmatamento do Prodes considerados na pesquisa, os CPFs masculinos concentram 77% e 67% das ocorrências, respectivamente. Entre os CPFs femininos, os percentuais foram de 5% e 20%.
Os números fazem parte do recorte utilizado pelo estudo e não significam, isoladamente, uma comparação geral sobre toda a gestão ambiental do agronegócio brasileiro.
Gestão feminina e sustentabilidade
Além dos indicadores econômicos, a pesquisa identificou características relacionadas ao modelo de gestão adotado pelas produtoras entrevistadas. Entre os aspectos destacados estão planejamento, diálogo e uma visão mais ampla das diferentes áreas do negócio rural.
A sustentabilidade também aparece associada à gestão das propriedades. Entre as práticas mencionadas estão o uso de bioinsumos, biodigestores, manejo da água, bem-estar animal e genômica.
O estudo aponta ainda que o apoio familiar exerce papel importante para a permanência das mulheres na atividade e na administração dos negócios. A pesquisa também abordou desafios relacionados à dupla jornada, barreiras culturais, redes de apoio e participação em iniciativas de cooperativismo.
Para Gislaine Balbinot, diretora executiva da Abag, os resultados mostram que a presença feminina avançou não apenas em quantidade, mas também em áreas estratégicas do agronegócio, envolvendo formação profissional, tecnologia, gestão e crédito.
Já Sabrina Muñoz, gerente executiva de GeoData e Analytics – Agronegócio da Serasa Experian, destaca que o cruzamento das bases utilizadas na pesquisa permitiu analisar aspectos econômicos e socioambientais relacionados à atuação das mulheres no campo.
Uma década de mudanças no agro
Ao comparar os resultados atuais com os dados de dez anos atrás, o levantamento aponta uma transformação no perfil das mulheres que participam diretamente da gestão rural.
O aumento da escolaridade, a maior presença na propriedade, o domínio de ferramentas tecnológicas e a participação nas decisões financeiras mostram uma atuação feminina cada vez mais integrada às diferentes etapas da atividade agropecuária.
O estudo também coloca em evidência um movimento de profissionalização da gestão rural feminina, em um cenário no qual produtoras passaram a ocupar espaços de decisão e administração que historicamente estiveram mais associados aos homens.