A consolidação de uma safra volumosa nos países do Mercosul e o estágio avançado da colheita em território nacional mantêm o mercado de arroz sob forte pressão de baixa. Com a oferta interna e regional em patamares elevados, analistas do setor apontam que o espaço para uma reação significativa nos preços do grão permanece restrito no curto prazo.
No cenário nacional, os trabalhos de campo já ultrapassaram 94% da área total estimada para este ciclo. O Rio Grande do Sul, principal estado produtor do país, lidera a reta final dos trabalhos e projeta consolidar um volume próximo a 7,9 milhões de toneladas de arroz em casca. Com esse desempenho, a produção brasileira consolidada deve se fixar em torno de 11 milhões de toneladas.
De acordo com avaliações da consultoria Safras & Mercado, os índices de produtividade registrados nas principais regiões agrícolas gaúchas foram expressivos, superando a média de 8,8 toneladas por hectare. Esse fator, associado ao rendimento industrial satisfatório e ao alto índice de grãos inteiros nas linhas de beneficiamento, solidifica o cenário de ampla disponibilidade do produto no mercado doméstico.
Diante do estoque abastecido, as cotações seguem em declínio, embora encontrem alguma resistência na postura de produtores mais capitalizados, que evitam liquidar seus lotes de forma imediata. Na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, os valores de referência oscilam atualmente entre R$ 57 e R$ 59 por saca de 50 quilos. Nas regiões da Campanha e da Depressão Central, as transações operam em níveis ligeiramente menores, entre R$ 56 e R$ 58. Já nos polos que se destacam pela superioridade industrial do grão, como a Zona Sul e as Planícies Costeiras, os negócios resistem em patamares mais altos, transitando entre R$ 62 e R$ 65 por saca.
Até o momento, a média estadual da saca de arroz no mercado gaúcho — considerando o padrão de 58% a 62% de grãos inteiros e liquidação à vista — fechou a última quinta-feira (14) cotada a R$ 60,24. O indicador reflete um recuo de 2,29% na comparação com a semana anterior e uma retração de 4,40% frente ao último mês. O impacto mais severo é percebido no balanço anual: em relação ao começo de 2025, a desvalorização acumulada do arroz atinge 21,16%.
A conjuntura doméstica é agravada por um desequilíbrio momentâneo na balança comercial do setor, que iniciou o período registrando um volume de importações superior ao de vendas para o exterior. Para analistas, reverter esse déficit e retomar o fluxo regular de exportações será um passo fundamental para escoar o excedente interno e reequilibrar as forças de mercado no país.
Apesar do viés de baixa no Brasil, o ambiente macroeconômico começa a emitir sinais de sustentação no exterior. Na Bolsa de Chicago, os contratos futuros do cereal operam valorizados, orbitando perto de US$ 13 por quintal curto. Essa firmeza internacional está ancorada no último relatório do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), que projetou uma redução global tanto na área cultivada quanto no volume total produzido para a temporada 2025/26, além de prever estoques mundiais de passagem mais enxutos.
Somado aos fundamentos do USDA, riscos de ordem climática e operacional voltaram a figurar no radar das tradings globais. O retorno das projeções sobre o fenômeno El Niño, as severas ondas de calor que atingem lavouras na Índia e o excesso de precipitações em Bangladesh geram incertezas sobre o potencial produtivo da Ásia. Esse panorama, combinado à persistência de custos elevados com fertilizantes, combustíveis e linhas de crédito agrícola, pode reconfigurar o balanço de oferta e demanda global no segundo semestre, abrindo novas janelas de oportunidade para o produto sul-americano.