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Saúde

Como tragédias no futebol mudaram protocolos de emergência e ampliaram o acesso a desfibriladores no Brasil

Casos de parada cardíaca em atletas e torcedores impulsionaram mudanças em estádios e locais públicos, reforçando a importância da resposta rápida e do uso de desfibriladores.

Por Redação
Como tragédias no futebol mudaram protocolos de emergência e ampliaram o acesso a desfibriladores no Brasil

O futebol brasileiro, conhecido por mobilizar milhões de torcedores, também se tornou um dos principais catalisadores de mudanças nos protocolos de atendimento a emergências cardíacas no país. Casos marcantes ocorridos dentro dos gramados ajudaram a impulsionar leis, treinamentos e a ampliação do acesso a desfibriladores em locais de grande circulação de pessoas.

O episódio que mais influenciou essa transformação ocorreu em 2004, quando o zagueiro Serginho, do São Caetano, sofreu uma parada cardiorrespiratória durante uma partida no Estádio do Morumbi, em São Paulo. A tragédia expôs a necessidade de respostas mais rápidas em situações críticas e abriu caminho para mudanças nos protocolos de segurança adotados em eventos esportivos.

Nos anos seguintes, estados e municípios passaram a exigir a presença de Desfibriladores Externos Automáticos (DEA) e a capacitação de equipes para atendimento inicial em emergências cardíacas. Entre os locais pioneiros na regulamentação estiveram a cidade de São Paulo, Campo Grande e o estado de Mato Grosso do Sul.

Duas décadas depois, o tema voltou ao centro das atenções após o uruguaio Juan Izquierdo sofrer um mal súbito durante uma partida da Copa Libertadores, em 2024. O caso reacendeu o debate sobre prevenção, diagnóstico precoce e rapidez no atendimento de situações cardiovasculares graves.

Mais recentemente, outro episódio reforçou a importância da estrutura de emergência em eventos esportivos. No último dia 10, um torcedor português de 77 anos morreu após sofrer uma parada cardíaca no Estádio Dr. Magalhães Pessoa, em Leiria, antes de um amistoso internacional. O caso evidenciou que o risco não se limita aos atletas e pode atingir qualquer pessoa presente em ambientes com grande concentração de público.

 Como tragédias no futebol mudaram protocolos de emergência e ampliaram o acesso a desfibriladores no BrasilSintomas nem sempre são percebidos

Segundo a médica Selma Guimarães Ferreira Medeiros, instrutora de cursos de Suporte Avançado de Vida Cardiovascular, a parada cardíaca súbita pode ocorrer inclusive em pessoas aparentemente saudáveis.

De acordo com a especialista, algumas doenças cardíacas hereditárias, alterações genéticas e distúrbios elétricos do coração podem permanecer silenciosos por anos, sem serem identificados em exames convencionais.

Ela explica que, durante atividades físicas intensas, o aumento da demanda cardiovascular pode desencadear arritmias graves em indivíduos predispostos. Sinais como desmaios, tonturas frequentes, palpitações, falta de ar excessiva e sensação de aperto no peito devem ser investigados por profissionais especializados.

Entre atletas jovens, as causas mais comuns estão associadas a cardiomiopatias e síndromes genéticas relacionadas ao ritmo cardíaco. Após os 35 anos, a doença arterial coronariana passa a ser a principal responsável pelos eventos súbitos.

Cada minuto faz diferença

Especialistas alertam que a rapidez do atendimento é determinante para aumentar as chances de sobrevivência. Quando uma pessoa cai sem contato físico e não responde aos estímulos, a suspeita de parada cardíaca deve ser considerada imediatamente.

Nesses casos, a recomendação é iniciar rapidamente as manobras de ressuscitação cardiopulmonar, acionar o serviço de emergência e utilizar o desfibrilador, quando disponível.

O DEA é um equipamento capaz de analisar o ritmo cardíaco e indicar, por meio de comandos de voz, se há necessidade de aplicação de choque elétrico. Por ser automatizado, pode ser utilizado por pessoas treinadas mesmo sem formação médica.

Especialistas ressaltam que a combinação entre reconhecimento precoce da emergência, compressões torácicas de qualidade e desfibrilação rápida é considerada o principal fator para reduzir mortes por parada cardíaca.

Legislação avançou, mas desafio permanece

Em Mato Grosso do Sul, a legislação determina a disponibilização de desfibriladores em diversos locais de grande circulação, como estádios, ginásios esportivos, shopping centers, aeroportos, rodoviárias, instituições de ensino superior, academias e clubes.

Apesar dos avanços registrados em diferentes estados, o Brasil ainda não possui uma legislação federal única que regulamente a obrigatoriedade desses equipamentos em todo o território nacional.

Além da estrutura física, especialistas defendem a ampliação da capacitação da população. Cursos de suporte básico de vida ensinam cidadãos comuns a reconhecer uma parada cardíaca, realizar compressões torácicas e utilizar corretamente o DEA até a chegada do socorro especializado.

Em qualquer situação de emergência, a orientação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo telefone 192, e iniciar as compressões no centro do tórax da vítima enquanto aguarda o atendimento.

A experiência acumulada nos estádios demonstra que medidas simples, associadas ao treinamento adequado e ao acesso rápido a equipamentos de desfibrilação, podem aumentar significativamente as chances de sobrevivência e evitar novas tragédias.

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