O avanço do conflito no Oriente Médio já começa a gerar reflexos diretos no agronegócio brasileiro. A elevação nos preços de fertilizantes, combustíveis e defensivos agrícolas preocupa produtores e especialistas do setor, principalmente diante das projeções para a safra 2026/27.
Para o pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), Mauro Osaki, o produtor rural brasileiro está acostumado a operar sob pressão e longe de cenários considerados confortáveis. Segundo ele, esse comportamento ajudou o país a ampliar a produção agrícola mesmo diante de crises climáticas, econômicas e geopolíticas nos últimos anos.
Agora, no entanto, o setor enfrenta um novo ciclo de preocupação. A guerra envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel já ultrapassa dois meses e afeta diretamente cadeias globais ligadas ao fornecimento de insumos essenciais para a produção agrícola.
De acordo com Osaki, a próxima safra deve registrar aumento expressivo nos custos operacionais, especialmente com fertilizantes, defensivos e diesel. A estimativa é de que o custo operacional efetivo da soja suba entre 6% e 7%, mantendo tendência semelhante à observada na temporada anterior.
O cenário preocupa principalmente porque os preços das commodities não acompanham o mesmo ritmo de alta dos custos de produção. Na avaliação do pesquisador, isso deve provocar um forte aperto nas margens do produtor rural.
Segundo ele, caso a produtividade se mantenha e a soja permaneça próxima da faixa de R$ 100 por saca em 2027, o setor poderá enfrentar uma das menores rentabilidades dos últimos 15 anos. O especialista relembra que um cenário semelhante ocorreu na safra 2005/06, período marcado pela crise conhecida como “tratoraço”.
Grande parte da pressão atual está ligada aos impactos no Estreito de Ormuz, região estratégica para o transporte global de gás natural e enxofre, matérias-primas utilizadas na fabricação de fertilizantes nitrogenados e fosfatados.
Para o pesquisador, o Brasil se torna mais vulnerável nesse contexto devido às características naturais do solo agrícola nacional. Segundo ele, áreas brasileiras exigem maior aplicação de adubo por hectare em comparação com países concorrentes, como Argentina e Estados Unidos.
Além do cenário internacional, o especialista também aponta preocupação com fatores internos, como custos tributários e aumento das despesas do setor produtivo. Na avaliação dele, mudanças recentes podem ampliar ainda mais a pressão sobre os produtores rurais.
Outro fator de atenção é o risco climático associado à possível atuação do fenômeno El Niño no segundo semestre. Estados do Sul, especialmente o Rio Grande do Sul, seguem em alerta após perdas acumuladas em safras anteriores causadas por eventos climáticos extremos.
Mesmo diante das incertezas, o pesquisador avalia que o agronegócio brasileiro continuará enfrentando os desafios por meio de adaptação e ganho de eficiência, cenário que historicamente acompanha o desenvolvimento do setor no país.