O mercado global de chocolates passa por uma reestruturação com o recuo expressivo nos custos de sua principal matéria-prima. Depois de um período marcado pela redução do tamanho das barras e pela proliferação de produtos rotulados como “sabor chocolate” — que utilizam aditivos e gorduras vegetais para baratear a produção —, a queda de quase 70% nas cotações futuras do cacau sinaliza a retomada das fórmulas tradicionais pela indústria alimentícia.
A crise de abastecimento atingiu o ápice quando problemas climáticos e pragas nas lavouras da África e do Brasil fizeram a tonelada do cacau triplicar, ultrapassando os US$ 12 mil no mercado internacional. Atualmente, as negociações na Bolsa de Nova York recuaram para patamares inferiores a US$ 4 mil a tonelada. Esse alívio financeiro fez com que grandes corporações do setor revissem suas estratégias. A fabricante americana Hershey, por exemplo, confirmou que suas principais linhas de produtos, incluindo as marcas Hershey’s e Reese’s, retornarão às receitas originais a partir do próximo ano, revertendo as modificações que haviam gerado queixas públicas por parte dos consumidores.
Para contornar a escassez anterior, o setor havia recorrido a formulações com substitutos à base de aveia e sementes de girassol, desenvolvidas por empresas de processamento como a Barry Callebaut. Essa busca por insumos alternativos acabou retraindo a demanda global por cacau ao menor nível em nove anos, pressionando a atual queda nos preços. Com o cenário econômico atual, o próprio segmento de processamento admite que utilizar os derivados genuínos do fruto tornou-se financeiramente mais viável do que manter as linhas substitutas baseadas em óleos vegetais.
No cenário brasileiro, sexto maior mercado consumidor do produto no mundo, a transição para produtos com maior pureza será impulsionada também pelo ambiente regulatório. Uma nova legislação determina que os itens comercializados como “chocolate” devem apresentar um teor mínimo de 35% de sólidos totais de cacau, dos quais ao menos 18% precisam ser manteiga de cacau — elevando o piso nacional que antes era de apenas 25%. A categoria de chocolate ao leite poderá manter a base de 25%, desde que combinada obrigatoriamente com os derivados lácteos.
Embora o segmento industrial demonstre preocupação com os custos imediatos para a adaptação de maquinários e reformulação de portfólios, os produtores rurais projetam um incremento na demanda interna. O advogado especialista em direito do agronegócio, Igor Fernandez de Moraes, explicou que o novo marco legal atua como um indutor de valor para o mercado nacional. Segundo o especialista, a padronização estimula a busca por insumos de maior valor agregado, posicionando o país pela qualidade e fortalecendo os pequenos produtores e cooperativas familiares, especialmente as que adotam o sistema cabruca de cultivo sombreado no Sul da Bahia.
Apesar do viés positivo para o consumidor, analistas de mercado ponderam que a recuperação plena da demanda internacional por cacau deve se estender por até trinta meses. O setor também monitora novos hábitos, como o avanço de medicamentos voltados à perda de peso que interferem no apetite por doces, e a aceitação da Geração Z a insumos alternativos. Além disso, a consolidação do fenômeno climático El Niño mantém o risco de novas quebras de safra no radar, o que deve fazer com que algumas versões econômicas de coberturas hidrogenadas continuem coexistindo no varejo.