A oposição ao governo federal na Câmara dos Deputados articula ações para questionar mudanças estruturais recentes no corpo de investigações da Polícia Federal (PF). O líder do Partido Liberal (PL) na Casa, deputado federal Sóstenes Cavalcante, anunciou que protocolará um requerimento de convocação direcionado ao diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues. O objetivo é colher esclarecimentos sobre a substituição do delegado que estava à frente do inquérito que apura fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), processo que inclui pedidos de quebra de sigilo vinculados a Fábio Luiz Lula da Silva, filho do presidente da República.
Diferente do convite, o instrumento da convocação obriga o comparecimento da autoridade caso a medida seja aprovada pelo plenário ou por alguma das comissões temáticas da Câmara — colegiado que o parlamentar ainda não definiu. Em manifestações públicas, Cavalcante argumentou que a troca da chefia da investigação ocorreu em um momento sensível dos trabalhos técnicos, o que, segundo ele, levanta dúvidas na opinião pública sobre a preservação da autonomia da instituição.
O parlamentar também traçou um paralelo com fatos ocorridos durante a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, período no qual decisões presidenciais de alteração no comando da PF geraram fortes reações de partidos políticos, veículos de imprensa e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Naquela ocasião, as contestações baseavam-se no risco de ingerência política. Durante o mandato anterior, a direção-geral da Polícia Federal passou por quatro trocas de comando, com destaque para o episódio em 2020, quando uma reunião ministerial gravada expôs discussões do então mandatário sobre mudanças na estrutura do órgão no Rio de Janeiro para blindar familiares e aliados de apurações em andamento.
O atual foco de fricção política em Brasília gira em torno da transferência da gestão do inquérito do INSS. O setor que vinha liderando as diligências operacionais e que havia solicitado as quebras de sigilo bancário ou fiscal foi afastado da coordenação direta do caso. O comando das investigações passou a ser de responsabilidade da Coordenação de Inquéritos nos Tribunais Superiores (Cinq).
Em nota oficial para contextualizar a reestruturação interna, a Polícia Federal sustentou que a transição foi planejada para garantir maior eficiência e dar continuidade técnica ao processo. A corporação defendeu que a Cinq possui um aparato permanente especificamente desenhado para conduzir operações complexas e de alta sensibilidade política que tramitam diretamente perante as instâncias do STF.
Apesar da justificativa institucional, a alteração gerou ruídos também no Poder Judiciário. O ministro do Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, relator do inquérito que apura o esquema de fraudes previdenciárias, foi pego de surpresa com a substituição da equipe. Diante do desconforto gerado pela falta de comunicação prévia, o magistrado convocou uma reunião na última sexta-feira (15) com os novos encarregados do caso para obter esclarecimentos técnicos sobre os rumos da fiscalização. Interlocutores apontam que o ministro não identificou justificativas robustas para a mudança no comando da operação e avalia adotar medidas cabíveis nos próximos dias.