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Feminicídio em MS: Estado soma 27 mortes em 2026 e segue entre as maiores taxas do Brasil

Após 39 mulheres assassinadas em 2025, Mato Grosso do Sul já contabiliza 27 feminicídios neste ano; casos recentes expõem desafio de interromper a violência antes que ela termine em morte.

Por Redação
Feminicídio em MS: Estado soma 27 mortes em 2026 e segue entre as maiores taxas do Brasil

Vinte e sete mulheres já foram vítimas de feminicídio em Mato Grosso do Sul em 2026. O número, atualizado até 18 de setembro pelo Monitor da Violência Contra a Mulher, mantém aceso um alerta que vem de anos anteriores: em 2025, o Estado registrou 39 feminicídios e apresentou taxa de 2,6 mortes para cada 100 mil mulheres, uma das mais elevadas do país.

Por trás da estatística estão histórias interrompidas dentro de casas, relacionamentos, ambientes familiares e até locais de trabalho. Mulheres de diferentes idades e cidades, mortas em contextos distintos, mas reunidas pela mesma classificação criminal: assassinadas por razões relacionadas à condição de mulher, incluindo situações de violência doméstica e familiar.

O cenário de Mato Grosso do Sul ganha dimensão ainda maior quando comparado ao restante do Brasil. Dados consolidados de 2025 apontaram 39 feminicídios no Estado, contra 35 no ano anterior. A taxa passou de 2,4 para 2,6 vítimas por 100 mil mulheres e colocou MS entre os estados com os maiores índices proporcionais do país.

O problema não é novo. Em 2024, Mato Grosso do Sul já aparecia com a segunda maior taxa de feminicídios do Brasil, atrás apenas de Mato Grosso. Naquele ano, foram 35 vítimas e uma taxa de 2,4 mortes por 100 mil mulheres, diante de uma média nacional de 1,4.

Um agosto marcado por mortes

A sequência registrada em 2026 teve um dos momentos mais graves em agosto. Após a reclassificação de uma ocorrência inicialmente tratada como crime de trânsito, o mês passou a contabilizar oito feminicídios no Estado.

Entre as vítimas estava Joseane Oliveira Nunes, de 33 anos, morta em Campo Grande em 19 de agosto. Segundo informações policiais divulgadas à época, ela já havia recorrido anteriormente a uma medida protetiva.

Quatro dias depois, Marta Florentino Godoi, de 40 anos, foi morta em Aquidauana. A Polícia Civil apontou o marido como suspeito do crime.

No fim do mesmo mês, Adriele dos Santos, de 34 anos, foi encontrada morta em Campo Grande. O ex-companheiro foi preso e o caso passou a ser investigado como feminicídio.

Outro caso, ocorrido em 2 de agosto, só entrou posteriormente na estatística. Wandete Góis da Silva, de 58 anos, morreu atropelada na BR-463, em Ponta Porã. Inicialmente tratada como homicídio culposo no trânsito, a ocorrência foi reclassificada pela Polícia Civil como feminicídio em setembro. Com a alteração, o total registrado no Estado chegou a 27 mortes.

Em 16 de setembro, Vera Lúcia Rossate da Cunha, de 59 anos, foi morta a tiros dentro do próprio comércio, no bairro Zé Pereira, em Campo Grande. O irmão foi apontado pela polícia como autor do disparo e morreu logo depois. Pessoas próximas relataram que Vera vinha demonstrando preocupação e teria recebido ameaças anteriormente.

Os casos possuem circunstâncias diferentes e as responsabilidades são apuradas individualmente. Em conjunto, porém, ajudam a mostrar que o feminicídio não está restrito a uma determinada idade, município ou perfil social.

Feminicídio em MS: Estado soma 27 mortes em 2026 e segue entre as maiores taxas do BrasilO crime costuma ser precedido por outros sinais

Órgãos que atuam no enfrentamento à violência contra a mulher alertam que o feminicídio frequentemente é precedido por comportamentos como ameaça, perseguição, isolamento, humilhação, controle e agressões anteriores.

O Ministério Público de Mato Grosso do Sul destaca que identificar esses sinais e avaliar rapidamente o nível de risco são pontos centrais para evitar a escalada da violência.

A lógica também está presente no Formulário Nacional de Avaliação de Risco, o Fonar. O instrumento reúne informações sobre a situação da vítima e fatores que podem indicar risco de repetição ou agravamento da violência. O objetivo é auxiliar Polícia Civil, Ministério Público, Judiciário e demais serviços a definir medidas de proteção de acordo com cada situação.

Uma medida protetiva pode, por exemplo, determinar afastamento do agressor, proibição de aproximação e contato com a mulher e outras providências. Desde mudanças feitas na legislação, a concessão pode ocorrer a partir do relato da vítima e não depende necessariamente da existência prévia de inquérito ou ação judicial.

MS tem rede de proteção, mas números continuam altos

Mato Grosso do Sul possui diferentes ferramentas de enfrentamento à violência doméstica.

Na Polícia Militar, o Programa Mulher Segura, o Promuse, acompanha mulheres em situação de violência, fiscaliza medidas protetivas e realiza visitas às vítimas.

A Polícia Civil mantém Delegacias de Atendimento à Mulher e Salas Lilás em municípios onde não há unidades especializadas. Em março deste ano, também entrou em vigor um novo protocolo obrigatório para atendimento de meninas e mulheres vítimas de violência doméstica, familiar e de gênero em todas as unidades policiais do Estado.

Campo Grande abriga ainda a primeira Casa da Mulher Brasileira inaugurada no país. O espaço funciona de forma integrada com delegacia especializada, Judiciário, Ministério Público, Defensoria Pública, apoio psicossocial e outros serviços. Em 2025, aproximadamente 16 mil mulheres passaram pela unidade, segundo a administração municipal.

No âmbito estadual, o programa Protege, instituído em 2025, prevê articulação entre diferentes órgãos para prevenção, acolhimento, fortalecimento da rede e responsabilização dos autores de violência.

A existência desses mecanismos, porém, convive com taxas ainda elevadas. Os números não permitem atribuir o resultado a uma única falha ou instituição, mas mostram que o desafio vai além de criar serviços: envolve fazer com que eles sejam acessíveis, rápidos e articulados antes que o risco se transforme em violência letal.

Feminicídio em MS: Estado soma 27 mortes em 2026 e segue entre as maiores taxas do BrasilComo interromper o caminho até o feminicídio?

As estratégias adotadas nacionalmente dividem a prevenção em etapas.

A primeira ocorre antes da violência, com educação, informação, enfrentamento a comportamentos abusivos e ações que questionem a naturalização do controle e da violência nas relações.

A segunda acontece quando o risco já existe. Nesse momento, entram avaliação de risco, medidas protetivas, fiscalização do agressor, atendimento policial, assistência social, saúde, Justiça e construção de uma rede que acompanhe a mulher.

A terceira busca garantir condições para que a vítima consiga reconstruir a vida, com acesso a renda, moradia, saúde, trabalho, educação e Justiça. Esses três níveis fazem parte das diretrizes do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios.

Em Mato Grosso do Sul, iniciativas como o acompanhamento das medidas protetivas pelo Promuse e projetos do Ministério Público que mantêm contato direto com mulheres protegidas judicialmente caminham nessa direção.

Outra frente é a expansão territorial dos serviços. Enquanto Campo Grande concentra estruturas especializadas, ampliar atendimento e integração da rede nos municípios do interior é parte das políticas estaduais em andamento. O Estado também prevê novas Casas da Mulher Brasileira em Corumbá, Dourados e Ponta Porã.

A prevenção, portanto, não começa somente quando a mulher chega à delegacia. Os modelos atualmente adotados por órgãos públicos incluem reconhecimento precoce de ameaças, avaliação de risco, resposta rápida ao descumprimento de medidas protetivas, integração de informações, autonomia econômica e educação voltada à prevenção da violência.

Quando pedir ajuda

Mulheres em situação de violência podem procurar qualquer delegacia ou uma unidade especializada de atendimento à mulher.

Em situação de emergência, a orientação é acionar a Polícia Militar pelo 190. O Ligue 180 oferece orientação e recebe denúncias sobre violência contra a mulher em todo o país. Em Campo Grande, a Casa da Mulher Brasileira funciona com atendimento integrado à rede de proteção.

Os 27 feminicídios contabilizados até setembro mostram que a discussão não termina depois da prisão ou da investigação de cada autor. Para impedir a próxima morte, o desafio está justamente no período anterior: reconhecer o risco, garantir que a mulher consiga chegar à rede e fazer com que a proteção chegue antes do agressor.

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