O presidente Luiz Inácio Lula da Silva embarca neste domingo (13) para Évian-les-Bains, na França, onde participa como convidado da Cúpula do G7, fórum que reúne sete das maiores economias industrializadas do mundo. Esta será a 10ª participação do mandatário no encontro ao longo de seus três mandatos. A viagem ocorre em um momento estratégico e de forte sensibilidade diplomática, marcado por recentes barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia (UE) a produtos e serviços brasileiros.
A presença de Lula no evento gera expectativa para possíveis interações informais com o presidente norte-americano, Donald Trump. A relação entre Brasília e Washington enfrenta um período de desgaste após o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sinalizar a aplicação de uma sobretaxa de 25% sobre parte das importações vindas do Brasil. A medida é fruto de uma investigação que alega “práticas desleais” no comércio bilateral, incluindo críticas ao sistema de pagamentos Pix, sob o argumento de que a tecnologia brasileira prejudica companhias digitais e operadoras de cartão estadunidenses.
Apesar da proximidade da cúpula, a diplomacia brasileira ainda não confirmou uma audiência bilateral entre os dois presidentes. O último encontro ocorreu em maio, na Casa Branca, quando equipes técnicas foram orientadas a desenhar uma solução para o impasse tarifário, proposta que ainda não se concretizou. Segundo o embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do Ministério das Relações Exteriores (MRE), os contatos com Washington permanecem intensos, embora a agenda na França não esteja fechada.
Paralelamente ao cenário comercial, a viagem marca o primeiro evento com as duas lideranças desde que os EUA classificaram as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como Organizações Terroristas Estrangeiras. O governo brasileiro tentava conter a designação nos bastidores por receio de que a medida dê margem a intervenções ou a sanções econômicas que afetem setores financeiros do país.
Embargo europeu e agenda asiática
Outra frente de negociação complexa envolve a União Europeia. O bloco formalizou recentemente o veto à importação de carnes, peixes, mel e tripas de origem brasileira, com vigência programada para 3 de setembro. O anúncio ocorreu pouco depois da entrada em vigor provisória do acordo comercial entre o Mercosul e a UE. O Itamaraty manifestou surpresa e preocupação com os desdobramentos operacionais e pretende levar o descontentamento aos líderes europeus, embora uma reunião com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, também não conste na agenda oficial.
Em contrapartida, o palácio do Planalto garantiu uma reunião bilateral com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, que assumiu o posto em outubro de 2025. O diálogo deve marcar a abertura formal de conversas para um futuro acordo comercial entre o país asiático e o Mercosul.
Sessões e discursos previstos
A cúpula, presidida pela França, acontece de 15 a 17 de junho e conta também com líderes convidados de nações como Índia, Coreia do Sul, Egito e Quênia. No plano multilateral, o Itamaraty confirmou a participação de Lula em três momentos principais.
No dia 16, o presidente discursará sobre o desenvolvimento internacional, cobrando o aumento do aporte financeiro das grandes potências para mitigar a vulnerabilidade de países em desenvolvimento. No dia seguinte, o foco do pronunciamento brasileiro será a reforma de instituições globais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a ONU, com ênfase no crescimento econômico equilibrado. A agenda oficial da comitiva termina no dia 17 com um debate voltado aos impactos e regulamentações da Inteligência Artificial.