Mato Grosso do Sul ocupa a primeira posição no ranking nacional de maus-tratos contra crianças e adolescentes. Os dados constam no 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23), e mostram que o Estado registrou, em 2025, 206,5 casos para cada 100 mil crianças e adolescentes de até 17 anos, índice quase três vezes superior à média brasileira.
O levantamento contabiliza 1.593 ocorrências no Estado ao longo do ano passado. Em todo o Brasil, foram registrados 38.986 casos, com média nacional de 77,4 ocorrências por 100 mil habitantes da mesma faixa etária.
A divulgação dos números ocorre mais de três anos após a morte da menina Sophia Ocampo, caso que mobilizou o Estado e levou o Governo de Mato Grosso do Sul a anunciar a criação de um Centro Especializado de Atendimento à Criança e ao Adolescente. Apesar da promessa feita em 2023, a unidade ainda não começou a ser construída.
Mato Grosso do Sul supera demais estados
De acordo com o anuário, Mato Grosso do Sul aparece à frente de Rondônia (197,3 casos por 100 mil habitantes), Amapá (187,6), Sergipe (164,9) e Santa Catarina (160,7), formando o grupo dos estados com as maiores taxas de registros de maus-tratos.
O estudo também revela uma tendência de crescimento da violência contra crianças. Em comparação com 2024, os registros aumentaram 14,6%, enquanto, na comparação com 2021, o número mais que dobrou.
Outro dado apresentado pelo levantamento mostra que as ocorrências de lesão corporal relacionadas à violência doméstica cresceram 5,5% no último ano e acumulam aumento de 15% nos últimos cinco anos.
Segundo o anuário, parte significativa das agressões ocorre dentro do ambiente familiar, embora também existam registros em outros espaços.
Crianças entre 5 e 9 anos concentram maior incidência
A pesquisa aponta diferenças importantes conforme a faixa etária das vítimas.
Os casos de maus-tratos são mais frequentes entre crianças de 5 a 9 anos, grupo que apresenta a maior taxa registrada no país. Os índices permanecem elevados entre crianças de até 13 anos e passam a diminuir durante a adolescência.
Já a violência doméstica com lesão corporal segue comportamento inverso. Os registros aumentam conforme a idade das vítimas e atingem o maior índice entre adolescentes de 14 a 17 anos, com taxa de 104 casos por 100 mil habitantes.
Na outra ponta do levantamento, Ceará, Rio de Janeiro, Maranhão, Amazonas, Pernambuco e Minas Gerais aparecem com os menores índices nacionais.
Casos recentes investigados pela Polícia Civil
Em 2026, diferentes episódios de suspeita de maus-tratos contra crianças e adolescentes passaram a ser investigados em Mato Grosso do Sul.
No fim de abril, um bebê de um ano foi internado em estado grave, em Campo Grande, apresentando diversos hematomas e suspeita de abuso sexual. A mãe e o padrasto acabaram presos durante as investigações.
Em maio, em Nova Andradina, uma mulher foi presa suspeita de agredir a filha de apenas sete meses, que sofreu fratura na costela e lesão no crânio, segundo a Polícia Civil.
Outro caso ocorreu em junho, quando uma bebê de três meses foi hospitalizada em estado grave após uma parada cardiorrespiratória. Durante o atendimento médico, foram identificadas lesões pelo corpo da criança, levando à prisão dos pais em flagrante.
Mais recentemente, em julho, um técnico de enfermagem foi preso em Campo Grande, suspeito de torturar um adolescente de 14 anos com deficiência severa enquanto prestava cuidados domiciliares ao jovem.
Centro prometido após caso Sophia continua apenas no planejamento
A criação do Centro Especializado de Atendimento à Criança e ao Adolescente foi anunciada pelo Governo do Estado em março de 2023, poucas semanas após a morte de Sophia Ocampo.
O projeto prevê atendimento ininterrupto, integrado à Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), em uma área localizada em frente à Casa da Mulher Brasileira, na Capital.
Passados mais de três anos, porém, o terreno destinado à obra permanece vazio.
Em agosto de 2025, o secretário estadual de Justiça e Segurança Pública, Carlos Videira, afirmou que a unidade seria entregue em 2026. Até o momento, entretanto, ainda não existe previsão para o início da construção.
Segundo informações da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), o centro já foi criado administrativamente e o projeto arquitetônico segue em fase de planejamento e ajustes técnicos, em conjunto com a Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos (Agesul).
A estrutura deverá ocupar uma área de 5.952 metros quadrados, formada por 13 terrenos repassados pela União ao Estado em 2024. O investimento previsto é de R$ 10 milhões.
O caso que marcou Mato Grosso do Sul
A morte de Sophia Ocampo, em janeiro de 2023, tornou-se um dos casos de maior repercussão no Estado.
A menina foi levada sem vida para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Bairro Coronel Antonino, em Campo Grande. Conforme as investigações, ela apresentava diversos sinais de violência pelo corpo.
A Polícia Civil apontou que Sophia havia recebido atendimento médico mais de 30 vezes antes da morte, sempre com indícios de agressões.
A mãe da criança, Stephanie de Jesus da Silva, e o padrasto, Christian Campoçano Leitheim, foram presos e respondem pelo caso.
A criação do centro especializado passou a integrar as medidas anunciadas pelo poder público após a repercussão do episódio, mas, até agora, a proposta permanece sem execução física.