As projeções mais recentes dos principais centros internacionais de monitoramento climático indicam que o fenômeno El Niño poderá ganhar força ao longo do segundo semestre de 2026 e alcançar intensidade histórica entre novembro e dezembro. Caso o cenário previsto se confirme, o episódio poderá figurar entre os mais fortes já registrados, com potencial para alterar o regime de chuvas, elevar temperaturas e provocar impactos significativos na agricultura, na economia e na infraestrutura do país.
Os modelos climáticos apontam que o aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial pode atingir anomalias entre +3°C e +4°C, com algumas simulações chegando próximo de +4,8°C na região conhecida como Niño 3.4. Apesar das previsões chamarem a atenção da comunidade científica, pesquisadores ressaltam que ainda existe um grau importante de incerteza.
Segundo o pesquisador Thiago Rangel Rodrigues, do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), os modelos mostram uma tendência consistente de fortalecimento do fenômeno, mas ainda é cedo para confirmar um evento recorde.
De acordo com o especialista, as previsões trabalham com cenários probabilísticos e somente o acompanhamento contínuo das condições do oceano e da atmosfera permitirá confirmar a intensidade que o fenômeno alcançará nos próximos meses.
Fenômeno altera o clima em diferentes regiões
O El Niño ocorre quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial permanecem acima da temperatura média por vários meses. Esse aquecimento modifica a circulação atmosférica global e altera os padrões de chuva e temperatura em diversas partes do planeta.
No Brasil, os efeitos costumam variar conforme a região. Historicamente, os estados do Sul registram aumento das chuvas, elevando o risco de enchentes, enquanto Norte e Nordeste tendem a enfrentar períodos mais secos, temperaturas elevadas e maior probabilidade de queimadas.
Quando o fenômeno apresenta intensidade elevada, esses impactos costumam se tornar mais frequentes e severos, favorecendo a ocorrência de ondas de calor, secas prolongadas e eventos extremos.
Mato Grosso do Sul pode sentir efeitos distintos
Em Mato Grosso do Sul, os reflexos do El Niño podem variar de acordo com as características climáticas de cada região.
A tendência é de maior volume de chuva na porção sul do estado, influenciada pela atuação mais frequente de frentes frias e sistemas de baixa pressão. Já nas regiões norte e oeste, o comportamento das precipitações pode oscilar conforme a intensidade do fenômeno e a interação com outros sistemas atmosféricos.
Os dois principais biomas do estado também podem sofrer alterações. No Pantanal, mudanças no ciclo das cheias e vazantes podem afetar a biodiversidade, o turismo, a navegação e a pecuária. Já no Cerrado, a irregularidade das chuvas representa um desafio para a produção agrícola.
Especialistas também alertam que a combinação entre temperaturas elevadas e períodos secos pode aumentar o risco de incêndios florestais, especialmente no Pantanal.
Agronegócio está entre os setores mais vulneráveis
A agricultura e a pecuária figuram entre as atividades mais sensíveis às alterações provocadas pelo El Niño.
Segundo Thiago Rangel Rodrigues, o principal desafio não está apenas no volume total de chuva, mas na distribuição das precipitações durante o ciclo das lavouras. Períodos secos em fases críticas do desenvolvimento das culturas ou excesso de chuva durante o plantio e a colheita podem comprometer significativamente a produtividade.
Culturas como soja, milho, algodão, feijão e cana-de-açúcar podem sofrer perdas tanto pela falta quanto pelo excesso de água. Na pecuária, mudanças na qualidade das pastagens, disponibilidade hídrica e aumento do estresse térmico dos animais também podem reduzir a produtividade.
Esses efeitos podem repercutir em toda a cadeia do agronegócio, influenciando logística, exportações, armazenamento e preços dos alimentos.
Impactos vão além da produção rural
Os possíveis reflexos do fenômeno também atingem outros setores da economia.
Chuvas intensas podem elevar custos de manutenção de rodovias, dificultar o transporte de cargas e comprometer o escoamento da produção agrícola. Alterações no regime dos rios também afetam a geração de energia, o abastecimento de água e atividades turísticas.
Na saúde pública, especialistas alertam para o aumento das condições favoráveis à proliferação do mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika. Além disso, períodos de queimadas podem agravar doenças respiratórias devido à piora da qualidade do ar.
Planejamento é apontado como principal ferramenta
Apesar das incertezas, especialistas destacam que o El Niño possui uma vantagem importante: sua evolução pode ser monitorada com meses de antecedência, permitindo que governos, produtores rurais e empresas adotem medidas preventivas.
Entre as recomendações estão o acompanhamento constante das previsões meteorológicas, planejamento da época de plantio, escolha de cultivares mais adaptadas, manejo adequado do solo e uso de ferramentas de monitoramento climático e hídrico.
O Laboratório de Ciências Atmosféricas da UFMS mantém um trabalho permanente de monitoramento das condições meteorológicas e de produção de estudos voltados à variabilidade climática, oferecendo informações que auxiliam gestores públicos e produtores na tomada de decisões.
Para os pesquisadores, incorporar as previsões climáticas ao planejamento é uma das formas mais eficazes de reduzir prejuízos e aumentar a capacidade de adaptação diante de eventos extremos.
Embora os modelos indiquem um cenário que exige atenção, a confirmação da intensidade do fenômeno dependerá da evolução das condições oceânicas e atmosféricas nos próximos meses.